domingo, 18 de janeiro de 2009

Reconhecer a pessoa


O vídeo acima consternou os espectadores de todo o mundo, pela indiferença extrema manifestada pelas pessoas em redor do semelhante que agoniza durante horas numa sala de hospital até morrer de exaustão. De facto, como afirma Goleman, “É essa humanidade que tantas vezes se perde na maquinaria impessoal da medicina moderna. Há quem afirme que esta atitude mecanicista leva a um desnecessário «sofrimento iatrogénico», a angústia que acresce quando o pessoal médico deixa o coração em casa. Mesmo com pessoas que estão a morrer, mensagens de insensibilidade da parte dos médicos podem, por vezes, gerar mais sofrimento emocional do que a própria doença”.

É, assim, urgente a adopção de uma “medicina centrada no doente”, estabelecer uma relação entre médico e doente. Além de curar, também é necessário SARAR o doente, ou seja, ajudá-lo a recuperar a sensação de integralidade e de bem-estar emocional.

Como fazê-lo?
Demonstrando INTERESSE pela pessoa e não apenas pelo diagnóstico.


Estudos efectuados demonstram que “a sensação com que o paciente ficava de que o médico fora «informativo» não tinha apenas a ver com o tipo de informação transmitida, mas também com a forma como fora transmitida. Um tom de voz que mostre interesse e envolvimento emocional faz com que as palavras do médico pareçam ajudar mais”. Goleman refere igualmente pequenas coisas que alguns médicos fizeram e que os ajudaram a estabelecer uma relação com os seus doentes, nomeadamente: “diziam aos pacientes o que podiam esperar das consultas ou tratamentos, conversavam com eles, tocavam-lhes de uma forma tranquilizadora, sentavam-se ao lado deles, riam com eles – o humor é um rápido e poderoso construtor de relações. Mais, certificavam-se de que os pacientes compreendiam as suas observações, pediam-lhes opinião, esclareciam todas as dúvidas e encorajavam-nos a falar”.

Quais as vantagens da "medicina centrada no doente" ou "centrada no relacionamento"?
Além de se contribuir para o bem-estar emocional do doente, gostando do médico mais facilmente o mesmo recordará as suas instruções e as cumprirá. Combatendo o veneno com o próprio veneno, numa lógica economicista, deterá maior valor comercial o médico que cativar um maior número de doentes, sendo igualmente este menos sujeito a processos por erro ou negligência médica.


Para reflectir...

O que será que leva profissionais cuja profissão é auxiliar os outros a atitudes desprendidas e frias?

Goleman cita as palavras de Dr. Youngson para explicar que no seio médico ainda opera a visão errónea de que o “distanciamento clínico” é a chave para uma compreensão clara. A isso alia-se a pressão para depender da tecnologia médica, a crescente fragmentação dos cuidados médicos (que obrigam os doentes a andar de especialista em especialista) e a escassez de pessoal de enfermagem (que obriga a que uma enfermeira tenha a seu cargo cada vez mais doentes).

Não obstante, as elevadas notas exigidas para o ingresso num curso de medicina (e que levam muitos portugueses a optar por tirar o curso em Espanha para depois exercerem cá a profissão) levam a especular que o isolamento exigido pela dedicação dos que se candidatam ao Ensino superior com intenções de enveredar pelo ramo da medicina bem como o elevado nível de exigência ao longo da frequência do curso desprovêem os médicos das competências sociais necessárias para estabelecer relações empáticas com os pacientes.

Haverá algum esforço no sentido de alterar esta situação? Numa pesquisa que efectuámos, verificámos que todos os planos de estudo dos cursos que consultámos (em instituições públicas e privadas) de medicina e de enfermagem em Portugal incluem pelo menos um módulo dedicado à ética ou à relação entre paciente e pessoal médico, o que poderá ser um indicador de mudança.

Esta tendência de ter em conta a especificidade e as necessidades de cada pessoa em particular não é alheia ao Ensino. Igualmente nos programas oficiais das diversas áreas curriculares se tecem considerações relativamente à necessidade de adoptar metodologias diversificadas e que vão ao encontro das diferenças cognitivas de cada aluno. O modelo pseudo-democrático de que tudo deve ser “igual para todos” encontra-se já ultrapassado.

1 comentário:

Anónimo disse...

Não será por mero acaso que Sheldon Cohen defende que os hospitalizados devem deliberadamente procurar aliados biológicos, avançando mesmo com a formação de uma rede social para os pacientes. Contudo, o vídeo apresentado não deixa de ser tão chocante quanto a proposta de Sheldon Cohen. Isto porque o que ela propõe devia ser um dado adquirido nos nossos valores enquanto seres humanos e não uma obrigação. Que dirá uma pessoa dessa suposta equipa quando se defrontar com uma pessoa em aflição, mas já fora da sua hora de expediente? Lamento, mas de momento não lhe posso sorrir nem falar consigo, pois já não estou no meu horário de trabalho?
O tratar do outro deveria ser algo tido como natural e inerente à nossa condição humana e não algo imposto, como as teorias de "medicina centrada no doente" ou "centrada no relacionamento".
Contudo, temos que admitir que a forma como a sociedade ocidental está a evoluir, terá que se "legislar" sobre as relações humanas de forma a que possamos cumprir esse "tremendo" desígnio que é o de sermos humanos.

Sleepless e-Learners