terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Comentário Final

No que diz respeito ao capítulo 17 do livro de Goleman, "Aliados Biológicos", as abordagens dos diferentes grupos foi bastante consensual, ainda que complementar. Todos referiram a importância das redes sociais nos diferentes estádios de desenvolvimento humano, e as interdependências das diferentes gerações entre si. Como exemplo, podemos referir que os extremos da pirâmide etária se tocam, já que muitas vezes idosos e crianças interagem de forma especialmente intensa em determinados momentos da vida, com benefícios mútuos.

Os E-Webers referem a questão da educação para o optimismo e da importância das instituições em que as crianças são educadas, e em que passam a maior parte do seu dia, e os Sleplesse e-Learners falam das comunidades virtuais que se geram em torno de jogos de computador, em certos casos, altamente nocivos para o desenvolvimento individual e social dos jovens. A solidão anda de mãos dadas com o crescente acesso às tecnologias e à Internet de banda larga.

No que se refere à questão do conflito nas relações a dois, todos os grupos parecem concordar que este é um elemento normal na vida dos casais, excepto quando se torna numa situação recorrente, que gera mau estar na vida em comum, e nas pessoas individualmente consideradas.

As mulheres e os idosos estão especialmente expostos aos efeitos nocivos de relações desequilibradas e marcadas pelo conflito permanente, e, muitas vezes, a ruptura é a única solução possível. Os filhos podem ser apanhados no meio do turbilhão emocional, funcionando simultaneamente como aliados de um e outro elemento do casal, o que acaba por ter um efeito de envolvimento não desejável. As discussões repetidas resultam em danos cumulativos, referem os E-Webers, e estes afectam directamente a saída dos envolvidos.

Outra fonte de stress diz respeito às interacções a que os seres humanos se expõe no seu dia a dia, e em especial no contexto profissional. Os profissionais da área da saúde, por exemplo, são obrigados a encontrar formas de lidar com elevados níveis de stress ocupacional, e os Avatar's do E-Learning referem o Coping como possível solução.

Os Sleepless e-Learners referem a importância da relação interpessoal no seu estádio mais próximo, marcada pelo contacto físico, que desde cedo reforça a auto-estima e auto-confiança do ser humano.

* * *

Relativamente ao capítulo “Tratar a pessoa”, foi de comum acordo entre nós e os “sleepless e-learners” que, sobretudo no ramo da medicina, prestar atenção à pessoa é tão importante como estabelecer um diagnóstico correcto. É dispensável acrescentar ao sofrimento físico do paciente, o sofrimento emocional resultante da insensibilidade médica. A capacidade de diagnosticar correctamente deve ser um dado
adquirido a par de uma medicina centrada no doente, na pessoa concreta. Tal facto, como referem os “sleepless e-learners”, “deveria ser algo tido como natural e inerente à nossa condição humana e não algo imposto”. Por outro lado, há que fornecer apoio aos prestadores de cuidados, aos que se dedicam a apoiar os outros, de forma a prevenir a “fadiga da compaixão”. Classes profissionais como a dos
professores, médicos e forças policiais revelam índices cada vez maiores de depressões e suicídios, fenómenos que podem ser combatidos se houver interajuda entre os colegas de trabalho ou constituindo-se grupos de apoio (onde se partilham experiências e se trocam conselhos).

Igualmente de acordo estivemos relativamente ao facto de a atenção e o cuidado requerido pelo ser humano não deverem ser subjugados a uma visão tecnicista ou economicista, que se refugia na impessoalidade da tecnologia ou que visualiza as pessoas enquanto meros números. Ainda que alguém, no anonimato tenha referido que “creio que a nossa situação ainda não é comparável com a norte-americana, e isto mesmo perante a constante ameaça de falência da nossa segurança social”, nunca é demais frisar o exemplo norte-americano para que o "ainda" não se torne o "agora".

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Aliados Biológicos

A constituição de redes sociais mais ou menos estruturadas, que proporcionem momento de interacção de qualidade aos seres humanos, é uma das formas tidas como mais efectivas na preservação de capacidades cognitivas durante o processo de envelhecimento.

As pessoas idosas que, independentemente das incidências da vida (aposentamento profissional, situação de viuvez, entre outras), conseguem ir mantendo e/ou construindo redes em sua volta - ou das quais sejam uma parte integrante e activa - tendem a beneficiar em termos de qualidade de vida e preservação de faculdades individuais.

É precisamente por este motivo que muitos idosos optam por, em situações de isolamento e solidão, procurar a companhia de pessoas estranhas (por exemplo, alugando espaço em sua casa a jovens estudantes ou trabalhadores deslocados das suas áreas de residência) ou chamar a si responsabilidades dentro da estrutura familiar (por exemplo, tomando conta de netos ou crianças com outro grau de parentesco).

A crescente esperança média de vida também motiva pessoas cada vez mais velhas a construir relações amorosas em idades já adiantadas, e o casamento entre pessoas da chamada 3ª idade aumentou bastante nos últimos anos.

Os idosos (mas não só, ver DN de 06/12/2004, "Solidão (também) mata... não só idosos como jovens") percepcionam cada vez melhor os malefícios da solidão, bem como os benefícios das redes sociais complexas "q.b.", e procuram ficar de fora das estatísticas nacionais que indicam que "quase 40 por cento dos portugueses a partir dos 65 anos passam oito ou mais horas dos seus dias sozinhos" (Jornal Público, 04/02/2008).


As redes sociais - que devem operacionalizar-se através de interacções de qualidade, e não apenas aparentes, como acontece de forma frequente em instituições onde idosos estão internados - servem de almofadas para os seus membros lidarem de forma mais saudável com o stress, os lhes permite diminuir os níveis de cortisol e beneficiar - no plano biológico - de menor probabilidade de padecer de formas diversas de enfermidade.

Goleman refere, a propósito da qualidade das interacções, que a neurociência já iniciou um processo de abertura ao relacionamento com outras disciplinas, como a arquitectura, de forma a criar ambientes sociais mais complexos nos quais a estimulação intelectual beneficia e patrocina o rejuvenescimento do cérebro.


Para reflectir...

Sobre o livro “Inteligência Social” impõe-se destacar dois pontos para justificar o comentário. Primeiro, Goleman realiza um trabalho que é uma síntese de investigações e descobertas na neurociência até à data, conferindo autenticidade ao que escreve; dois, Goleman consegue apontar o dedo na direcção de comportamentos importantes para criar empatia com os outros e, desta forma, confere utilidade para o leitor. As histórias narradas, que começam e terminam os capítulos, lançam desafios e apontam soluções.

Sobre redes sociais em Portugal, Constança Paúl (2006) destaca a importância da construção de uma rede de suporte social e da existência de confidentes, que permitem maior qualidade de vida aos idosos. A promoção do envelhecimento activo (“processo de optimização de oportunidades para a saúde, participação e segurança, no sentido de aumentar a qualidade de vida durante o envelhecimento”) passa pela frequência de contactos com os outros e o apoio. A família tem um lugar de destaque como rede de apoio mas o seu carácter involuntário nem sempre se revela positivo para o idoso. Em contrapartida, a rede de amigos, as relações interpessoais significativas (confidentes) são determinantes para um envelhecimento activo. Todos aqueles que entre nós habitam em zonas urbanas e que têm avós ou pais a viver nas zonas rurais, reconhecem o valor dos amigos e dos vizinhos dos familiares para o seu envelhecimento saudável. A preocupação aumenta quando os confidentes desaparecem e o familiar fica cada vez mais isolado e só.

Campo de batalha conjugal

As relações a dois podem ser elementos de grande felicidade e de estruturação das vidas das pessoas envolvidas, ou pelo contrário fontes de stress e de desestruturação de vidas e de estados de saúde...

Goleman aborda a questão conjugal apresentando este "campo de batalha" como um dos que mais pode contribuir para a falência individual das pessoas que compõem as relações a dois. Sobretudo... as mulheres.


As discussões a dois são normais, e há quem as considere momentos de importante crescimento das relações e dos casais. Todavia, como em tudo na vida, há limites que uma vez ultrapassados definem situações nada saudáveis, que interferem por exemplo com o sistema imunológico de quem leva a vida a discutir. Isto acontece porque as relações pessoais se relacionam com as questões imunológicas através do sistema endócrino. Esta realidade assume contornos mais evidentes no caso dos casais com idade mais avançada, já que o seu sistema imunológico encontra-se - naturalmente - menos resistente.

As mulheres são, nas relações heterossexuais, o elo do casal que mais tende a sofrer - no plano biológico - com o clima de batalha conjugal. Goleman explica este facto com uma suposta maior valoração do elemento emocional das relações. Em todo o caso há também quem defenda que as mulheres têm um sistema imunitário, em regra, mais frágil do que o dos homens.

Goleman refere também que as mulheres tendem a gastar mais tempo a "remoer" no conflito e nas suas causas.

O stress no casamento influi de forma directa e mensurável na saúde dos elementos do casal (por exemplo no que se refere aos níveis de colesterol) sendo certo que relações mais felizes beneficiam a saúde daqueles que nelas se encontram, sendo o inverso igualmente verdadeiro: relações turbulentas tendem a prejudicar a saúde dos que nelas se inserem.


Para reflectir...

Num estudo do cardiologista norte-americano, James Coyne (2001), os pacientes que viviam o stress no casamento tinham uma probabilidade 1,8 vezes maior de morrer dentro de quatro anos do que os que tinham uma relação conjugal menos desgastante, o que torna surpreendente como é que as tensões nas relações pessoais conduzem a problemas fisiológicos. Hoje, alguns investigadores consideram existir associação entre a angústia matrimonial e os sintomas da doença de Parkinson e Alzheimer.

Sobre a causa da discussão entre casais, é pertinente a expressão de um investigador francês, Philippe Caillé (1991), que resume na equação “um e um são três” – no casamento coexistem duas individualidades e uma conjugalidade. Como conjugar dois sujeitos com desejos, visões do mundo, histórias e projectos de vida diferentes com um desejo e visão do mundo, uma história e projecto de vida conjugal? “Como ser dois sendo um? Como ser um sendo dois?” Julgamos que a riqueza da união está na diversidade e sobretudo na aceitação dessas individualidades. A inteligência social revela-se importante na gestão das duas individualidades com a conjugalidade.

Socorristas emocionais

Experiências laboratoriais revelam que em situações potencialmente causadoras de tensão, a presença de entes queridos (e mesmo de desconhecidos) junto ao sujeito podem resultar num efeito tranquilizador, reduzindo-se a tensão/ansiedade associada à experiência desagradáveis.

O contacto físico (o toque ou a "mão dada"), que é sempre mais eficaz se a pessoa que tocamos nos for querida (o reconhecimento do toque familiar é muito comum), acalma o circuito através do qual circulam no corpo as hormonas associadas ao stress.

No caso de casais (marido/mulher), as senhoras tendem a beneficiar mais da presença e toque do marido quando a relação entre os dois é saudável, sendo esta uma das explicações para o facto dos casamentos felizes protegerem as mulheres ao nível da sua saúde geral.

A questão do toque - ou do contacto pele com pele - encontra-se associada a um fenómeno biológico, que é a secreção de ocitocina, a qual actua no corpo como factor regulador da hormona do stress. A ocitocina beneficia a saúde, auxilia na regulação do ritmo cardíaco e da tensão e está na origem do reforço dos níveis de cortisol.


É interessante notar que a "vida" da ocitocina - o seu tempo de efeito - é relativamente curto, mas uma vida marcada por relacionamentos próximos e positivos patrocina uma maior libertação deste elemento no organismo, o que naturalmente oferece ao corpo e à mente uma melhor qualidade de vida.

Os socorristas emocionais são aqueles que, ao longo da nossa vida, nos ajudam a mediar de forma mais eficaz o stress, actuando - mesmo que inconsciente ou involuntariamente - no sentido de desencadear no nosso organismo os mecanismos biológicos de restabelecimento de equilíbrios.


Para reflectir...

Goleman fala-nos do contacto pele-com-pele e usa o exemplo de uma mulher satisfeita no casamento associada ao “benefício biológico de segurar a mão do marido”.
Outro exemplo é clássica relação mãe-filho. Uma investigação na Suíça revela que o contacto pele-com-pele reduz o stress para mães e bebés prematuros, em oposição à separação imediata entre a mãe e o bebé quando ocorrem partos prematuros. Na mãe o contacto reduz os níveis de cortisol e no bebé a redução dos batimentos cardíacos, dos níveis de dor e a melhoria geral do estado de espírito. O contacto pele-com-pele é conhecido por “método canguru”. Também o contacto mãe-filho durante a amamentação produz a ocitocina e permite o aumento da produção de leite materno. Isto é um ciclo perfeito!

Contágio Positivo

Os seres humanos criam ao longo da sua vida relações mais ou menos fortes com aqueles que os rodeiam, e algumas dessas relações, pela profunda empatia e força que assumem, levam a que duas pessoas se tornem elementos com elevada importância na regulação fisiológica do outro.

Este poderoso efeito na fisiologia do outro pode ser do tipo alimentador – quando os parceiros ajudam o outro a lidar de forma positiva com situações ou pensamentos causadores de mal-estar – o que de um ponto de vista biológico significa que foi interrompida (por exemplo através de um repensar conjunto dessas situações ou pensamentos) a chamada "cascata neuroendócrina negativa".

Por outro lado, quando por motivo de separação ou morte de um ente querido com quem estabelecemos uma relação deste tipo somos privados desta conexão biológica, ficamos mais expostos aos efeitos perniciosos destes estímulos negativos do meio. O caso dos idosos que se deparam com a morte do seu parceiro (ficam assim em situação de viuvez) é paradigmático: muitos acabam por morrer em pouco tempo, já que todo o sistema biológico é extraordinariamente afectado pela ausência do outro, e o risco de doença cresce por via de um enfraquecimento do sistema imunológico.

As mulheres, curiosamente, defendem-se melhor nestas circunstâncias, e o seu cérebro segrega mais ocitocina do que o dos homens. Conseguem-no através de estratégias de contacto com outros - crianças, por exemplo - que passam a constituir-se como fontes de contágio positivo e de auto-regulação. Trata-se aqui de recriar a rede social mais próxima, através de desconhecidos ou amigos próximos.

Pelo contrário, no caso dos homens o efeito da ocitocina é suprimido pela presença das hormonas sexuais (enquanto as hormonas sexuais femininas reforçam o efeito da ocitocina). Esta diferença dos homens face às mulheres gera reacções diferentes face a perigos ou situações geradoras de ansiedade: o homem prefere estar sozinho, enquanto a mulher prefere – em regra – a presença de terceiros.

Em suma, as relações positivas entre pessoas têm um efeito emocional e outro biológico, com efeito directo na saúde de cada um. Parceiros positivos, próximos, carinhosos, actuantes... funcionam como aliados ao nível da resistência às agressões do meio. Por isso é tão importante que pessoas portadoras de doenças graves ou crónicas vejam reforçadas as suas ligações e rede social de apoio já que "rir é o melhor remédio".


Para reflectir...

Goleman, nos exemplos que explora, privilegia as relações mais próximas (entre familiares ou amigos). Fugindo a isso, julgamos possível falar da relação professor-aluno, sobretudo quando quer um quer o outro devem encontrar os fins do seu desenvolvimento no sucesso dessa relação.
Actualmente algumas vozes sugerem que para a relação pedagógica dar fruto as partes têm de se ver como pessoas, a comunicação (e não a informação) deve ganhar terreno e fazer-se com profundidade e autenticidade e que deve estar centrada na relação e não numa das partes. Alguns podem ver nestas palavras a perda da liderança do professor. Goleman tem a resposta: um líder deve exibir simpatia e sintonia e cultivar um interesse genuíno em despertar sentimentos positivos nos outros, com todo o fundamento biológico que o autor explora ao longo do livro. Este é um desafio para o professor, para quem a perda da liderança resulta no stress e noutras consequências para a sua saúde. O contágio positivo do professor no aluno faz-se pelo exercício da liderança, por saber o que motiva os alunos, quais as suas necessidades, saber como se sentem, estar em sintonia com o humor deles, envolver o aluno na discussão e apelar para o interesse dele, orientar o aluno com compaixão e investir tempo e energia nesse trabalho, cultivar o orgulho da equipa, extrair o melhor de cada aluno, pedir opinião e dar apoio.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Tratar a pessoa

Ao longo da obra Inteligência social, sobretudo no capítulo intitulado "Aliados biológicos", Daniel Goleman demonstra a correlação entre a qualidade dos relacionamentos interpessoais e o bem-estar físico e emocional do ser humano. Uma relação interpessoal de qualidade, também designada de relação Eu-Tu, implica uma ligação cérebro a cérebro, isto é, o estabelecimento de empatia entre os membros envolvidos na relação, o prestar atenção ao outro, sintonizar-se com ele, sentir as suas necessidades e agir em seu auxílio.

No capítulo "Tratar a pessoa" (da supracitada obra), reflecte-se acerca da empatia no contexto da medicina. Goleman advoga que a mentalidade contabilística que tende a subjugar a medicina implica o atendimento por parte do pessoal médico de um número cada vez maior de pacientes no menor tempo possível, a aplicação prática da conhecida expressão time is money.

Esta lógica economicista limita o tempo das consultas ao necessário para o estabelecimento de um diagnóstico correcto e negligencia o tratamento emocional, a atenção requerida por doentes que, na maior parte dos casos, se encontram emocionalmente fragilizados.

Este desamor organizado ou calculado (pois quanto maior o número de doentes atendidos, maiores serão as receitas auferidas) empobrece a medicina visto que, como refere Goleman, “ignorar as pessoas, mesmo no interesse da venerada eficiência, nos leva a pôr de lado um potencial aliado biológico: sentir interesse humano”. É certo que “um cirurgião, por mais compassivo que seja, continua a ter de cortar e uma enfermeira, por mais compassiva que seja, continua a ter de executar certos processos dolorosos. Mas o corte e a dor custam menos quando são acompanhados por uma expressão de bondade e de interesse. Ser notado, sentido e cuidado alivia a dor de uma forma muito significativa. A indiferença e a rejeição amplificam-na”.


Para reflectir...

As vicissitudes do SNS americano a que Goleman se refere são bem conhecidas. Filmes que se assemelham a documentários, como Sicko (2007), realizado por Michael Moore dão bem conta do flagelo do sistema de saúde Norte-americano quando comparado com países como Cuba, França ou Canadá e cujo trailer poderão visualizar abaixo.


Neste filme é denunciada a subjugação do poder político e da própria medicina aos interesses dos grandes grupos económicos que giram em torno da indústria farmacêutica e dos seguros de saúde. Linda Peeno foi uma médica que se celebrizou por ter confessado publicamente tal facto:


No entanto, o predomínio de interesses economicistas face a interesses humanitários não se manifesta exclusivamente nos Estados Unidos, confessamos que a situação em Portugal nos preocupa igualmente. O encerramento de clínicas e de escolas públicas em prol de uma contenção de custos leva ao perigo de se armazenarem os doentes e os alunos em contentores (des)humanos, sem infra-estruturas e pessoal qualificado em número suficiente para dar resposta em tempo útil a um número tão vasto de pessoas. As manifestações pelo encerramento de escolas e de unidades de saúde têm sido avulsas, sobretudo em regiões do interior onde as pessoas terão de percorrer muitos quilómetros para levar as crianças à escola ou para se deslocarem às urgências. Veja-se a apreensão partilhada pela maioria dos leitores de uma notícia que anunciava o fecho de 900 escolas para o ano transacto.

Reconhecer a pessoa


O vídeo acima consternou os espectadores de todo o mundo, pela indiferença extrema manifestada pelas pessoas em redor do semelhante que agoniza durante horas numa sala de hospital até morrer de exaustão. De facto, como afirma Goleman, “É essa humanidade que tantas vezes se perde na maquinaria impessoal da medicina moderna. Há quem afirme que esta atitude mecanicista leva a um desnecessário «sofrimento iatrogénico», a angústia que acresce quando o pessoal médico deixa o coração em casa. Mesmo com pessoas que estão a morrer, mensagens de insensibilidade da parte dos médicos podem, por vezes, gerar mais sofrimento emocional do que a própria doença”.

É, assim, urgente a adopção de uma “medicina centrada no doente”, estabelecer uma relação entre médico e doente. Além de curar, também é necessário SARAR o doente, ou seja, ajudá-lo a recuperar a sensação de integralidade e de bem-estar emocional.

Como fazê-lo?
Demonstrando INTERESSE pela pessoa e não apenas pelo diagnóstico.


Estudos efectuados demonstram que “a sensação com que o paciente ficava de que o médico fora «informativo» não tinha apenas a ver com o tipo de informação transmitida, mas também com a forma como fora transmitida. Um tom de voz que mostre interesse e envolvimento emocional faz com que as palavras do médico pareçam ajudar mais”. Goleman refere igualmente pequenas coisas que alguns médicos fizeram e que os ajudaram a estabelecer uma relação com os seus doentes, nomeadamente: “diziam aos pacientes o que podiam esperar das consultas ou tratamentos, conversavam com eles, tocavam-lhes de uma forma tranquilizadora, sentavam-se ao lado deles, riam com eles – o humor é um rápido e poderoso construtor de relações. Mais, certificavam-se de que os pacientes compreendiam as suas observações, pediam-lhes opinião, esclareciam todas as dúvidas e encorajavam-nos a falar”.

Quais as vantagens da "medicina centrada no doente" ou "centrada no relacionamento"?
Além de se contribuir para o bem-estar emocional do doente, gostando do médico mais facilmente o mesmo recordará as suas instruções e as cumprirá. Combatendo o veneno com o próprio veneno, numa lógica economicista, deterá maior valor comercial o médico que cativar um maior número de doentes, sendo igualmente este menos sujeito a processos por erro ou negligência médica.


Para reflectir...

O que será que leva profissionais cuja profissão é auxiliar os outros a atitudes desprendidas e frias?

Goleman cita as palavras de Dr. Youngson para explicar que no seio médico ainda opera a visão errónea de que o “distanciamento clínico” é a chave para uma compreensão clara. A isso alia-se a pressão para depender da tecnologia médica, a crescente fragmentação dos cuidados médicos (que obrigam os doentes a andar de especialista em especialista) e a escassez de pessoal de enfermagem (que obriga a que uma enfermeira tenha a seu cargo cada vez mais doentes).

Não obstante, as elevadas notas exigidas para o ingresso num curso de medicina (e que levam muitos portugueses a optar por tirar o curso em Espanha para depois exercerem cá a profissão) levam a especular que o isolamento exigido pela dedicação dos que se candidatam ao Ensino superior com intenções de enveredar pelo ramo da medicina bem como o elevado nível de exigência ao longo da frequência do curso desprovêem os médicos das competências sociais necessárias para estabelecer relações empáticas com os pacientes.

Haverá algum esforço no sentido de alterar esta situação? Numa pesquisa que efectuámos, verificámos que todos os planos de estudo dos cursos que consultámos (em instituições públicas e privadas) de medicina e de enfermagem em Portugal incluem pelo menos um módulo dedicado à ética ou à relação entre paciente e pessoal médico, o que poderá ser um indicador de mudança.

Esta tendência de ter em conta a especificidade e as necessidades de cada pessoa em particular não é alheia ao Ensino. Igualmente nos programas oficiais das diversas áreas curriculares se tecem considerações relativamente à necessidade de adoptar metodologias diversificadas e que vão ao encontro das diferenças cognitivas de cada aluno. O modelo pseudo-democrático de que tudo deve ser “igual para todos” encontra-se já ultrapassado.

Curar os curadores

Na medicina, como em qualquer profissão que implica uma relação/interacção com os outros, dar e receber emoções é extremamente importante, pois minimiza a tensão psicológica do trabalho. Os trabalhadores dos cuidados de saúde, especialmente a classe dos enfermeiros que lida com maior frequência com a dor e o desespero dos pacientes, são tão vulneráveis como qualquer outro ser humano. Se transmitirem calma, afecto, ternura, provavelmente receberão dos pacientes e respectivas famílias a mesma conectividade emocional.


O vídeo acima ilustra um fluxograma emocional no seio do qual existe solidariedade entre colegas de trabalho, condição indispensável em profissões que envolvem prestar ajuda humanitária. Partilhar experiências e sentirmo-nos compreendidos é uma boa forma de repor os nossos recursos emocionais. Quando tal não sucede, como observa Goleman, “os prestadores de cuidados ficam com os depósitos vazios. Sempre que os prestadores de cuidados de saúde sentem que recebem o apoio emocional de que necessitam, sentem-se mais capazes de oferecer o mesmo tipo de apoio aos seus pacientes”. “Quando os membros das profissões ligadas à assistência não sentem ter uma base estável de apoio naqueles com quem trabalham ou para quem trabalham, tornam-se mais susceptíveis à «fadiga da compaixão»”. A «fadiga da compaixão» deve ser solucionada mediante o apoio emocional e não mediante a recusa em ouvir o outro:



Para Reflectir...

Levantamentos sugerem que 80% a 90% dos médicos praticantes apresentam sinais de esgotamento. Os sintomas incluem a exaustão emocional relacionada com o trabalho, intensos sentimentos de insatisfação e uma atitude despersonalizada Eu-Isso. Fenómeno idêntico se manifesta em classes profissionais como a dos professores e a dos polícias, que envolvem uma grande interacção social e que tem estado na origem do tão comentado “síndroma de abandono profissional”. Num artigo presente no portal aprendiz, Vivien Lobato advoga que, segundo dados apresentados pela psicóloga Nádia Leite, só no Centro-Oeste do Brasil, por exemplo, 15% dos professores apresentam esgotamento e falta de motivação.
Tipicamente, a componente emocional ligada a estas profissões não é vista como “verdadeiro trabalho”, havendo uma desvalorização da mesma por parte dos respectivos sectores administrativos. É então necessário que além das competências técnicas ou científicas que estas profissões envolvem (e que devem ser um dado adquirido) se desenvolvam mecanismos de apoio emocional aos profissionais destas áreas.
Enquanto isso, há e haverá, na medicina, líderes promovidos “com base na sua competência médica e não na competência pessoal”, o que distingue os líderes medíocres dos soberbos.









Curar a pessoa

Em muitos casos, será necessário passar pelas situações para nos lembrarmos e tentarmos resolvê-las. Foi o caso de Kenneth B. Schwartz, um advogado a quem diagnosticaram um cancro do pulmão. Ao vivenciar momentos emocionais com uma enfermeira que “tornaram o insuportável suportável”, decidiu agir em função dos outros pacientes e fundou um centro de apoio e promoção dos cuidados médicos compassivos cujo website poderão consultar em http://www.theschwartzcenter.org/

Superando as expectativas, o primeiro Encontro do Centro Schwartz contou com a presença de inúmeros profissionais da saúde, o que revelou a grande necessidade de discussão sobre preocupações e medos do pessoal hospitalar.
Presentemente, o paciente deixa de ser visto como um número, onde, numa perspectiva economicista, o médico ou enfermeiro demoram o mínimo tempo possível na sua tarefa, não “gastando” tempo com a dimensão humana.



A empatia e a construção de uma relação emocional melhoram a qualidade dos cuidados prestados e, no caso de doenças terminais, não curam, mas fazem “uma enorme diferença” (Kenneth Schwartz).