domingo, 18 de janeiro de 2009

Tratar a pessoa

Ao longo da obra Inteligência social, sobretudo no capítulo intitulado "Aliados biológicos", Daniel Goleman demonstra a correlação entre a qualidade dos relacionamentos interpessoais e o bem-estar físico e emocional do ser humano. Uma relação interpessoal de qualidade, também designada de relação Eu-Tu, implica uma ligação cérebro a cérebro, isto é, o estabelecimento de empatia entre os membros envolvidos na relação, o prestar atenção ao outro, sintonizar-se com ele, sentir as suas necessidades e agir em seu auxílio.

No capítulo "Tratar a pessoa" (da supracitada obra), reflecte-se acerca da empatia no contexto da medicina. Goleman advoga que a mentalidade contabilística que tende a subjugar a medicina implica o atendimento por parte do pessoal médico de um número cada vez maior de pacientes no menor tempo possível, a aplicação prática da conhecida expressão time is money.

Esta lógica economicista limita o tempo das consultas ao necessário para o estabelecimento de um diagnóstico correcto e negligencia o tratamento emocional, a atenção requerida por doentes que, na maior parte dos casos, se encontram emocionalmente fragilizados.

Este desamor organizado ou calculado (pois quanto maior o número de doentes atendidos, maiores serão as receitas auferidas) empobrece a medicina visto que, como refere Goleman, “ignorar as pessoas, mesmo no interesse da venerada eficiência, nos leva a pôr de lado um potencial aliado biológico: sentir interesse humano”. É certo que “um cirurgião, por mais compassivo que seja, continua a ter de cortar e uma enfermeira, por mais compassiva que seja, continua a ter de executar certos processos dolorosos. Mas o corte e a dor custam menos quando são acompanhados por uma expressão de bondade e de interesse. Ser notado, sentido e cuidado alivia a dor de uma forma muito significativa. A indiferença e a rejeição amplificam-na”.


Para reflectir...

As vicissitudes do SNS americano a que Goleman se refere são bem conhecidas. Filmes que se assemelham a documentários, como Sicko (2007), realizado por Michael Moore dão bem conta do flagelo do sistema de saúde Norte-americano quando comparado com países como Cuba, França ou Canadá e cujo trailer poderão visualizar abaixo.


Neste filme é denunciada a subjugação do poder político e da própria medicina aos interesses dos grandes grupos económicos que giram em torno da indústria farmacêutica e dos seguros de saúde. Linda Peeno foi uma médica que se celebrizou por ter confessado publicamente tal facto:


No entanto, o predomínio de interesses economicistas face a interesses humanitários não se manifesta exclusivamente nos Estados Unidos, confessamos que a situação em Portugal nos preocupa igualmente. O encerramento de clínicas e de escolas públicas em prol de uma contenção de custos leva ao perigo de se armazenarem os doentes e os alunos em contentores (des)humanos, sem infra-estruturas e pessoal qualificado em número suficiente para dar resposta em tempo útil a um número tão vasto de pessoas. As manifestações pelo encerramento de escolas e de unidades de saúde têm sido avulsas, sobretudo em regiões do interior onde as pessoas terão de percorrer muitos quilómetros para levar as crianças à escola ou para se deslocarem às urgências. Veja-se a apreensão partilhada pela maioria dos leitores de uma notícia que anunciava o fecho de 900 escolas para o ano transacto.

1 comentário:

Anónimo disse...

A comparação entre hospitais ocidentais e os da Índia profunda onde Goleman viveu não é de todo inocente, uma vez que ele pretende criticar ainda mais o SNS americano.
Apesar da preocupação dos colegas em relação ao encerramento de Centros de Saúde (eu que o diga pois vivo numa terra onde as Urgências fecham às 20h e onde o hospital mais próximo está a 40km), creio que a nossa situação ainda não é comparável com a norte-americana, e isto mesmo perante a constante ameaça de falência da nossa segurança social.
Em relação à parte da alma, permitam-me destacar a Operação Nariz Vermelho e o Banco do Tempo enquanto exemplos válidos de como ainda é possível acreditar em dias melhores.
Sleepless e-Learners