Observem o seguinte vídeo e classifique o comportamento social do protagonista:
No nosso entender o comportamento social de Mr. Bean revela diversas anomalias, nomeadamente: - a inadequação da sua postura (esbraceja e ouve música ao volume que muito bem entende sem ter em conta a presença dos demais passageiros); - a dificuldade em sintonizar-se com o outro (se não fosse a assistente de bordo a chamar a atenção para o mal-estar da criança Mr. Bean não se teria apercebido); - a incapacidade de apreender o que parece estar a passar pela mente do outro (graceja com o mau estar físico que uma viagem de avião pode causar, realçando o enjoo da criança); - a dificuldade em inferir coisas que não são ditas (rebenta o saco não percebendo que o mesmo já foi usado pela criança).
O comportamento social de Mr. Bean, é um exemplo, entre outros que iremos abordar, do que Goleman designa por “cegueira mental”, isto é, o oposto da visão mental ou a capacidade de “espreitar para dentro da mente de outra pessoa e sentir-lhe os sentimentos e deduzir-lhe os pensamentos – a capacidade fundamental da acuidade empática.”
Goleman fala de Temple Grandin, que foi diagnosticada como autista quando era ainda criança. O autor traça o pefil de Temple como uma jovem que usava sempre as mesmas frases em todas as conversas, o que lhe valeu a alcunha de “risco riscado”. Também diz que ela se mostrava sempre muito ansiosa e hipersensível.
Numa breve pesquisa, encontramos Temple Grandin na internet. Observem atentamente Temple no vídeo. O que é que o comportamento, o discurso e a postura de Temple vos sugere?
Difícil, não? Talvez o olhar de Temple tenha a “fuga” que tanto caracteriza o olhar de autistas, ou então a sua postura mais inibida e pouco à vontade revele ansiedade. No entanto, vemos desenvoltura na linguagem e a acontecer a relação e a comunicação com os outros.
O que vemos é resultado de um caminho próprio apoiado nos momentos certos pelos outros. É neste sentido que Goleman introduz o exemplo de Temple.
Num discurso na primeira pessoa, Temple fala do seu passado como autista. Estavam lá as dificuldades na fala, de andar em linha recta, de sincronizar o seu ritmo com o das outras pessoas, de entrar nas conversas e seguir os seus fluxos (pelas dificuldades na fala e em moderar os estímulos auditivos). Mantinha, também, sempre uma postura curva e não olhava as pessoas nos olhos. Hoje, Temple Grandin é uma mulher bem sucedida, não só como especialista em comportamento animal, mas também como escritora, relatando nos seus livros a sua aventura com o autismo, e ultrapassando em muito as barreiras impostas pela síndrome.
O que fez com que Temple Grandin fosse bem sucedida?
A busca do estímulo da compressão. Sentia-se ansiosa de receber um estímulo de compressão e partiu para a construção da máquina que proporcionava uma pressão confortante sobre grandes áreas do corpo e, assim, aprendeu a aceitar a sensação de ser abraçada e não continuar a fugir ao contacto. A falta de empatia dos autistas, segundo Temple, prende-se com a falta dos estímulos agradáveis do tacto. Se isto não acontecer, dificilmente um autista poderá ser capaz de dar amor a outro ser humano.
Aprender a direccionar as fixações. É importante canalizar as fixações o que ajuda a construir carreiras profissionais. Assim aconteceu com Temple. O médico queria substituir a máquina de compressão por um medicamento, mas o professor de ciências de Temple encorajou-a a ler artigos científicos para justificar o efeito positivo da máquina. Assim foi, e com isto Temple iniciou a sua carreira.
A importância de mentores. A mãe de Temple e o professor de ciências foram peças importantes. O acompanhamento de um professor imaginativo, pronto a desafiar a criança, e que a ajude a potenciar os dons e a minimizar as deficiências é decisivo para o seu sucesso. As pessoas que ajudaram mais Temple foram as mentes mais criativas e as menos convencionais.
Das três chaves para abrir a imensa porta que as barreiras do autismo vedam, o material de que são feitas é o mesmo. A necessidade de conseguir o contacto físico agradável com os outros. Encontrar uma forma de ser útil aos outros e justificar a existência. A importância dos outros para ultrapassar as dificuldades.
Tomando o exemplo de Temple, parece que “os rudimentos básicos da interacção têm de ser aprendidos à força”, como diz Goleman, “se é que chegam a ser aprendidos.”
Do ponto de vista social, como interpretam o comportamento ou reacção ilustrada no cartoon?
No nosso entender, o cartoon retrata a falta de sensibilidade típica de pessoas que manifestam uma fraca capacidade empática e uma alta capacidade de sistematização – o padrão neural subjacente ao síndroma de Asperger. Goleman refere como exemplo desta patologia Borcherds, o génio vencedor da Fields Medal, afirmando que “Para ele, a comunicação é puramente funcional: descobrir o que se pretende de determinada pessoa e esquecer a conversa de circunstância, quanto mais falar do que se sente ou querer saber como vai o outro.”
Tire 9 minutos do seu tempo para visualizar o seguinte documentário no qual se descrevem as implicações sociais do síndroma de Aspergern, com relatos na primeira pessoa de quem experienciou de facto essas limitações:
“Se nos falta esta sensibilidade, ficamos em desvantagem em se tratando de amar, acarinhar, cooperar (…) e sentimo-nos pouco à vontade nas situações sociais. Sem visão mental, os nossos relacionamentos seriam ocos; relacionar-nos-íamos com as outras pessoas como se fossem objectos, sem sentimentos ou pensamentos próprios – precisamente o que acontece aos que sofrem da síndroma de Asperger ou de autismo. Seríamos “mentalmente cegos”.
[1] Se colocarmos uma marca grande na testa de um bebé com menos de dezoito meses e o fizermos olhar para um espelho, tipicamente essa criança tocará com a mão na marca da imagem que vê no espelho. O que é que isso revela?
[2] Imaginemos que pedimos a um bebé de idêntica idade que escolha um de dois alimentos. Após este ter escolhido, manifestamos preferência pelo não escolhido. De seguida, colocamos a mão da criança entre os dois alimentos e perguntamos-lhe se nos pode dar um. Geralmente, a criança dá-nos o alimento que ela prefere e não aquele pelo qual expressámos preferência. Porquê?
[3] Vamos supor que numa sala estão duas crianças e que escondemos uma guloseima à sua frente. Seguidamente, pedimos a uma criança para sair e mudamos a guloseima para outro esconderijo à frente da criança que ficou. Quando perguntamos à criança (de três anos) que ficou na sala, onde é que a outra criança terá de procurar a guloseima, esta responde que a outra a irá procurar no novo esconderijo. Porque responde inadequadamente?
[4] Suponhamos, agora, que brincamos com uma criança de três anos e que numa das mãos temos um fantoche – o Macaco Mau. Esse fantoche exibe um par de autocolantes e pergunta à criança qual o seu preferido. O Macaco Mau fica com o autocolante preferido da criança e dá-lhe o outro. Se continuarmos o jogo, a criança não percebe a maldade do boneco e continua a dizer inocentemente a verdade, não conseguindo obter o autocolante que pretende. Porque será?
As crianças retratadas ainda não desenvolveram “visão mental”, pois, como Goleman refere, “Ter visão mental exige as seguintes competências básicas: [1] fazer a distinção entre nós próprios e os outros, [2] compreender que outra pessoa pode pensar diferentemente de nós e [3] perceber as situações de uma outra perspectiva, e [4] perceber que os objectivos dos outros podem não corresponder aos nossos melhores interesses.” Esta maturação intelectual é extremamente importante pois torna as crianças mais hábeis no mundo onde habitam, ensinando-as a negociar com os irmãos ou a sobreviver no recreio, por exemplo. Esses pequenos mundos serão a sua escola da vida.
Acham, no entanto, que a falta de “visão mental” é um fenómeno que ocorre exclusivamente na infância? Antes de responderem observem a seguinte imagem:
A verdade é que fenómenos como a anorexia podem resultar de uma percepção distorcida, ou seja, algumas pessoas (geralmente mulheres) confundem o extremo com a norma e tendem a concentrar a sua atenção nas colegas mais atraentes ou mais magras, considerando-se, por isso, sempre abaixo da média real.
Consideram que a “visão mental” distorcida é um fenómeno exclusivo das mulheres? Novamente, antes de responderem vejam o seguinte vídeo:
De facto, como refere Goleman, “os colegas do sexo masculino não são de modo algum imunes a cometer um erro equivalente, ainda que numa área diferente: a bebida. Os mais dados a beber em excesso julgam-se a si mesmos usando como padrões os grandes beberrões do grupo. Este erro de percepção convence-os de que têm de «exagerar» para se integrarem”.
Querem saber o que é uma “caixa de nada” ou “uma grande bola de fios”? Vale a pena ver o vídeo, 10 minutos hilariantes!
Apesar do tom brincalhão, cada vez mais os cientistas falam das diferenças entre os cérebros masculino e feminino.
Simon Baron-Cohen, citado por Goleman, fala dessas diferenças entre os cérebros, e apoiado em testes por ele desenvolvidos (Empathizing Test e Systemizing Test), pretende determinar que tipo de cérebro a pessoa tem.
Os cérebros podem ser classificados do seguinte modo: CérebroE (Empatia) – Orienta-se pelas questões: Como é que o outro se sente? Como tratá-lo com atenção e sensibilidade? CérebroS (Sistematização) – Orienta-se pelas questões: Como é que as coisas funcionam? O que é que controla o sistema? CérebroB(Balanced/Equilibrado) – Forte tanto em empatia como em sistematização.
Cada pessoa tem um tipo de cérebro, mas mais mulheres têm o cérebro “E” e mais homens têm o cérebro “S”. Todos nós podemos testemunhar isto. Podem confirmar, basta distribuir o M (Mulher) e o H (Homem) pelas afirmações:
Quem é que vemos frequentemente a confortar os outros? Quem é mais agressivo? Quem é mais sensível às expressões e olhares dos outros? Quem pressente e descodifica rapidamente a comunicação não-verbal? Quem é indiferente à presença dos outros? Quem julga mais facilmente o carácter de alguém? Quem, mais distraído, descuida o contacto visual?
Achamos que o exercício dispensa a correcção.
Se o tempo, a cultura e a socialização desempenham um papel importante na formação do cérebro masculino (forte em sistemas) e do feminino (forte em empatia), os estudos mostram que a biologia também determina muito.
Mas quais as diferenças entre os cérebros?
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Mas, como é um cérebro hiper-masculino? É a lógica masculina levada ao extremo, um exagero do perfil masculino. É ter dificuldade com a empatia e um baixo coeficiente da compreensão dos sentimentos dos outros. É ter um interesse muito forte e obsessivo de como funciona um sistema. É o autismo com todas as suas variantes (como Asperger), bem como o exemplo de Temple Grandin.
O capítulo 10 do livro "Inteligência Social" de Daniel Goleman, intitulado "Genes não são destino" dedica-se em traços gerais à desmistificação da perspectiva segundo a qual a informação genética contida no nosso ADN determina de forma decisiva o desenvolvimento físico, mental, emocional e social do ser humano.
De facto assim não é. O nosso destino não se encontra sempre acorrentado aos genes, pese embora estes não lhe sejam alheios de forma alguma.
A pergunta é pois pertinente: até que ponto somos determinados pela nossa herança genética no desenvolvimento físico, psicológico e social?
Goleman tentou responder a esta questão, iniciando a sua abordagem com um exemplo laboratorial: o dos "ratos alcoolicos" de John Crabbe, os quais demonstraram laboratorialmente que os factores genéticos não explicam, por si só, o comportamento.
Transferindo a conclusão da experiência de Crabbe para o contexto humano, Goleman refere então aquela que é a ideia basilar do capítulo: a expressão concreta dos Genes faz-se de acordo com vários factores condicionantes, de entre os quais a experiência e as interações com os outros e com o meio são aspectos fundamentais.
No fundo, o ser humano é portador de um conjunto imenso de possibilidades para o seu desenvolvimento, contidas no seu código genético. E a concretização (ou não) das possibilidades de que é portador depende, em larga medida, da forma como se relaciona com o meio.
O cérebro humano é extremamente vulnerável - ou moldável - em função das experiências e interacções com que desde criança os seres humanos se deparam, na família, na escola, no grupos de amigos ou até no contacto com desconhecidos. Mais: a própria imagem que o ser humano tem de si mesmo condiciona o desenvolvimento e modelação do cérebro, e por consequência a activação ou inibição da expressão de determinada informação genética, contida no ADN.
O exemplo dos gémeos humanos, pessoas cuja origem se encontra associada à fertilização do mesmo óvulo materno por parte do mesmo espermatozoide paterno, é neste particular muitíssimo evidente: indivíduos portadores de código genético semelhante podem desenvolver-se de formas muito diferentes, apresentando ao longo da vida características distintivas evidentes, cujas semeçhanças físicas não fariam prever.
O vídeo que se segue (parte um de seis) fala precisamente sobre este tema, usando a comparação entre gémeos para mais facilmente exemplificar a perspectiva da área científica à qual se chamou genética comportamental.
Colocados perante a evidência da relação entre as interacções com o meio e o código genético, no desenvolvimento humano, a pergunta seguinte parece ser: como é que essa influência mútua acontece? O comportamento humano surge de uma relação dinâmica entre o desenvolvimento do cérebro e a experiência e vivências do ser. A forma como o cérebro se desenvolve influencia o nosso comportamento, mas também é verdade que o nosso comportamento influencia de forma determinante o crescimento cerebral, o reforço de ligações neurais e até a constituição de circuitos.
Apesar de não ser um músculo, o cérebro pode e deve ser trabalhado, já que a forma como é utilizado vai determinar a sua modelação, em especial até ao início da idade adulta.
A utilização mais recorrente de determinadas conexões reforça-as, enquanto que a não utilização de outras conexões as enfraquece e, a prazo, elimina. Ao cérebro parece pois aplicar-se o princípio de Lavoisier segundo o qual "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".
Contrariamente a um mito que fez escola e se tornou num dogma, hoje desmentido, não é verdade que o ser humano nasce com um conjunto de células cerebrais que uma vez mortas não serão mais substituídas. A investigação demonstra que o corpo possui a capacidade de regenerar células cerebrais, e esses mecanismos assegurados pela espinal medula bem como pelo próprio cérebro são hoje estudados de forma a facilitar a cura de doenças degenerativas.
O desenvolvimento do cérebro é pois um processo permanente, embora com maior nível de actividade durante a infância e adolescência. Esse processo é naturalmente condicionado pelo genoma, mas a forma como este se expressa pode ser decisivamente condicionada pela vivência do ser com os outros, com o meio e consigo próprio.
Goleman refere investigações sobre a migração intra-ceberal de células fusiformes (os "conectores super-rápidos do cérebro social"), a qual está em larga medida dependente de influências do meio, como são as experiências afectivas do próprio.
Assim, e contrariamente ao sentimento de alívio que alguns pais sentiram numa fase inicial - quando todos os problemas de comportamento relativos aos respectivos filhos eram explicados em exclusivo pela herança genética - esta perspectiva epigenética vem reforçar a responsabilidade dos educadores na modelação do cérebro da criança, e por consequência de tudo aquilo que se encontra sob a jurisdição daquele órgão.
As experiências emocionais e relacionais experimentadas pelos seres humanos estão ligadas de forma muito directa à modelação genética, ou seja, à forma como determinada possibilidade de desenvolvimento(consequência de uma expressão concreta e activada do genoma) acontece por oposição a outra possibilidade de desenvolvimento (não activada, apesar de latente no ser humano).
Esta influência decisiva das condicionantes do meio na expressão física e comportamental do código genético explicam em larga medida as diferenças de comportamento, por exemplo, existentes nos chamados "gémeos verdadeiros", ou univitelinos, que partilham o mesmo genoma.
Os gémeos verdadeiros são "clones" um do outro, mas se forem sujeitos a experiências diferentes ao longo do seu desenvolvimento - sendo ou não separados fisicamente um do outro - tornar-se-ão muito provavelmente pessoas cognitiva e comportamentalmente muito distintas.
O fortalecimento dos circuitos neurais moldados, que se encontra na origem da generalidade dos comportamentos que nos são próprios, ou que reproduzimos repetidas vezes, gera aquilo a que os neurocientistas chamam "armação neural", que mais não é do que um mecanismo de perpetuação de fluxos neurais, os quais apenas com esforço podem ser - temporária ou definitivamente - alterados.
No fundo, é como se numa floresta utilizássemos sempre o mesmo caminho, perpetuando o trilho aberto, e deixando que todas as alternativas em torno se deixassem tomar por arbustos, silva e ervas daninhas. O facto de percorrermos sempre o mesmo trilho cria condições para que não tenhamos sequer vontade de experimentar outras vias, pois as mesmas vão-se apagando, por evidente falta de utilização...
Esta questão é particularmente importante no que diz respeito a fobias, por exemplo, já que estas se encontram em regra associadas a circuitos neurais solidificados e muitas vezes activados de forma automática pelas reacções da via inferior, controlada pela amígdala, a qual é activada por uma qualquer percepção de perigo.
Quando esta solidificação extrema de circuitos está na origem de algumas perturbações do comportamento, como a POC (Perturbação Obsessiva-Compulsiva), que se caracteriza pela repetição de comportamentos, naturalmente favorecida pela construção ao longo do tempo de um certo tipo de "armação neural" que dificulta o simples acto de contrariar as compulsões.
Obsessive Compulsive Disorder Presentation (In Youtube)
Os E-Navegantes são um grupo de estudantes do Mestrado de Gestão de Sistemas de E-Learning (FCSH/UNL), constituído no âmbito da disciplina de Gestão de Comunidades Virtuais de Aprendentes.