As pessoas idosas que, independentemente das incidências da vida (aposentamento profissional, situação de viuvez, entre outras), conseguem ir mantendo e/ou construindo redes em sua volta - ou das quais sejam uma parte integrante e activa - tendem a beneficiar em termos de qualidade de vida e preservação de faculdades individuais.
É precisamente por este motivo que muitos idosos optam por, em situações de isolamento e solidão, procurar a companhia de pessoas estranhas (por exemplo, alugando espaço em sua casa a jovens estudantes ou trabalhadores deslocados das suas áreas de residência) ou chamar a si responsabilidades dentro da estrutura familiar (por exemplo, tomando conta de netos ou crianças com outro grau de parentesco).
A crescente esperança média de vida também motiva pessoas cada vez mais velhas a construir relações amorosas em idades já adiantadas, e o casamento entre pessoas da chamada 3ª idade aumentou bastante nos últimos anos.
Os idosos (mas não só, ver DN de 06/12/2004, "Solidão (também) mata... não só idosos como jovens") percepcionam cada vez melhor os malefícios da solidão, bem como os benefícios das redes sociais complexas "q.b.", e procuram ficar de fora das estatísticas nacionais que indicam que "quase 40 por cento dos portugueses a partir dos 65 anos passam oito ou mais horas dos seus dias sozinhos" (Jornal Público, 04/02/2008).
As redes sociais - que devem operacionalizar-se através de interacções de qualidade, e não apenas aparentes, como acontece de forma frequente em instituições onde idosos estão internados - servem de almofadas para os seus membros lidarem de forma mais saudável com o stress, os lhes permite diminuir os níveis de cortisol e beneficiar - no plano biológico - de menor probabilidade de padecer de formas diversas de enfermidade.
Goleman refere, a propósito da qualidade das interacções, que a neurociência já iniciou um processo de abertura ao relacionamento com outras disciplinas, como a arquitectura, de forma a criar ambientes sociais mais complexos nos quais a estimulação intelectual beneficia e patrocina o rejuvenescimento do cérebro.
Para reflectir...
Sobre o livro “Inteligência Social” impõe-se destacar dois pontos para justificar o comentário. Primeiro, Goleman realiza um trabalho que é uma síntese de investigações e descobertas na neurociência até à data, conferindo autenticidade ao que escreve; dois, Goleman consegue apontar o dedo na direcção de comportamentos importantes para criar empatia com os outros e, desta forma, confere utilidade para o leitor. As histórias narradas, que começam e terminam os capítulos, lançam desafios e apontam soluções.
Sobre redes sociais em Portugal, Constança Paúl (2006) destaca a importância da construção de uma rede de suporte social e da existência de confidentes, que permitem maior qualidade de vida aos idosos. A promoção do envelhecimento activo (“processo de optimização de oportunidades para a saúde, participação e segurança, no sentido de aumentar a qualidade de vida durante o envelhecimento”) passa pela frequência de contactos com os outros e o apoio. A família tem um lugar de destaque como rede de apoio mas o seu carácter involuntário nem sempre se revela positivo para o idoso. Em contrapartida, a rede de amigos, as relações interpessoais significativas (confidentes) são determinantes para um envelhecimento activo. Todos aqueles que entre nós habitam em zonas urbanas e que têm avós ou pais a viver nas zonas rurais, reconhecem o valor dos amigos e dos vizinhos dos familiares para o seu envelhecimento saudável. A preocupação aumenta quando os confidentes desaparecem e o familiar fica cada vez mais isolado e só.
3 comentários:
A interacção é um acto fundamental numa vida humana que se quer saudável, como nos confirmam os comentários dos E-Navegantes e que neste momento cumprimentaríamos elogiosamente dando a mão. Esta necessária e conscienciosa engenharia social dos mais crescidos leva-nos à preocupante questão do isolamento dos jovens e especialmente daqueles que se refugiam por longos períodos de tempo nos jogos de estratégia formando gigantescas comunidades virtuais. Encontros, na maioria das vezes violentos, não apenas pelo objectivo do jogo, mas também pela tumultuosa quantidade de imagens e sons que progressivamente tiram o consciente da realidade, passando-o para o consciente virtual. Virtualmente acompanhados, isolados na realidade de um espaço que deveria estar humanamente mais preenchido no propósito maior de crescer saudável. Não aprendem, assim, a desenvolver o contacto social, lidam mal com as responsabilidades escolares – stress e evoluem lentamente em termos cognitivos. O papel dos avós é fundamental e essencial para servir de complemento à educação dos pais e reciprocamente saudável na relação avós/ netos. Especialmente naquelas famílias cuja base "pai-mãe" passou para uma base maior onde a quantidade não significa necessariamente qualidade.
Sleepless e-Learners
Concordo que os avós têm um papel importante no processo de socialização das crianças mas onde estão os avós? Com a crescente longevidade das populações ocidentais e, consequentemente, com o aumento da vida activa, em que temos de trabalhar até aos 65 anos, com tendência para essa idade aumentar na Europa ocidental, será difícil termos avós que possam acompanhar de perto as nossas crianças.
O substituto dos avós passa a ser feito pelas creches e infantários onde, cada vez mais, é importante e urgente ter técnicos habilitados para educarem as nossas crianças no desenvolvimento de competências sociais que lhes permitam ter relacionamentos saudáveis.
Igualmente importante é educar para o optimismo numa perspectiva de desenvolver o pensamento positivo que lhes permita desenvolver níveis de resiliência e mecanismos de coping adequados e necessários para fazer face à solidão social tão característica das modernas sociedades ocidentais. E, sendo esta realidade inevitável, quanto mais não seja pelo prolongamento da vida activa em que todos andaremos tão ocupados que nem teremos tempo de olhar pelos outros e prestar-lhes cuidados, mais do que resolver problemas remediando situações, é necessário educar para que a vida adulta seja mais confortável.
Adoptemos o novo paradigma da Psicologia Positiva que, em vez de se centrar no negativo, parte para o positivo ao abordar o funcionamento da personalidade e aquilo que ela tem de bom, o bem-estar subjectivo e o ensino da resiliência. Hoje sabe-se o quanto as emoções e sentimentos têm um papel crucial na forma como as pessoas reagem às circunstâncias do meio. Há ainda algumas actividades que favorecem o bem-estar psíquico e, consequentemente, a forma de ver o mundo. As diferenças individuais desempenham também uma função importante ao longo de todo este processo.
Assim, educadores, professores, técnicos, psicólogos e outros, precisam de trabalhar mais nesta vertente enquanto facilitadores do desenvolvimento de características pessoais que face a circunstâncias adversas sejam potenciadoras do bem-estar pessoal e social. É urgente, pois, como diz o velho ditado – “de pequenino é que se torce o pepino”.
Palmira Barcelos
e-webers
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