segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Quem é Temple Grandin?

Goleman fala de Temple Grandin, que foi diagnosticada como autista quando era ainda criança.
O autor traça o pefil de Temple como uma jovem que usava sempre as mesmas frases em todas as conversas, o que lhe valeu a alcunha de “risco riscado”. Também diz que ela se mostrava sempre muito ansiosa e hipersensível.

Numa breve pesquisa, encontramos Temple Grandin na internet.
Observem atentamente Temple no vídeo. O que é que o comportamento, o discurso e a postura de Temple vos sugere?



Difícil, não?
Talvez o olhar de Temple tenha a “fuga” que tanto caracteriza o olhar de autistas, ou então a sua postura mais inibida e pouco à vontade revele ansiedade. No entanto, vemos desenvoltura na linguagem e a acontecer a relação e a comunicação com os outros.

O que vemos é resultado de um caminho próprio apoiado nos momentos certos pelos outros. É neste sentido que Goleman introduz o exemplo de Temple.

Num discurso na primeira pessoa, Temple fala do seu passado como autista.
Estavam lá as dificuldades na fala, de andar em linha recta, de sincronizar o seu ritmo com o das outras pessoas, de entrar nas conversas e seguir os seus fluxos (pelas dificuldades na fala e em moderar os estímulos auditivos). Mantinha, também, sempre uma postura curva e não olhava as pessoas nos olhos.
Hoje, Temple Grandin é uma mulher bem sucedida, não só como especialista em comportamento animal, mas também como escritora, relatando nos seus livros a sua aventura com o autismo, e ultrapassando em muito as barreiras impostas pela síndrome.


O que fez com que Temple Grandin fosse bem sucedida?

A busca do estímulo da compressão. Sentia-se ansiosa de receber um estímulo de compressão e partiu para a construção da máquina que proporcionava uma pressão confortante sobre grandes áreas do corpo e, assim, aprendeu a aceitar a sensação de ser abraçada e não continuar a fugir ao contacto. A falta de empatia dos autistas, segundo Temple, prende-se com a falta dos estímulos agradáveis do tacto. Se isto não acontecer, dificilmente um autista poderá ser capaz de dar amor a outro ser humano.

Aprender a direccionar as fixações. É importante canalizar as fixações o que ajuda a construir carreiras profissionais. Assim aconteceu com Temple. O médico queria substituir a máquina de compressão por um medicamento, mas o professor de ciências de Temple encorajou-a a ler artigos científicos para justificar o efeito positivo da máquina. Assim foi, e com isto Temple iniciou a sua carreira.

A importância de mentores. A mãe de Temple e o professor de ciências foram peças importantes. O acompanhamento de um professor imaginativo, pronto a desafiar a criança, e que a ajude a potenciar os dons e a minimizar as deficiências é decisivo para o seu sucesso. As pessoas que ajudaram mais Temple foram as mentes mais criativas e as menos convencionais.

Das três chaves para abrir a imensa porta que as barreiras do autismo vedam, o material de que são feitas é o mesmo. A necessidade de conseguir o contacto físico agradável com os outros. Encontrar uma forma de ser útil aos outros e justificar a existência. A importância dos outros para ultrapassar as dificuldades.

Tomando o exemplo de Temple, parece que “os rudimentos básicos da interacção têm de ser aprendidos à força”, como diz Goleman, “se é que chegam a ser aprendidos.”

3 comentários:

magnuspetrus disse...

Temple é um exemplo bem sucedido de como um autista ( na sua forma mais ligeira, atenção!!)pode evoluir de forma a integrar-se plenamente na sociedade – sendo importante enfatizar o envolvimento, a comunicação, a interacção. Assim sendo e apesar de ser comummente aceite de que não há uma cura ou tratamento eficaz, um diagnóstico precoce acompanhado do respectivo tratamento pode conduzir a melhorias significativas dos resultados.
De certa forma, também nós somos "autistas" no sentido em que vamos evoluindo constantemente de forma a nos conseguirmos encaixar nas mais diversas vertentes da sociedade, sobretudo quando atingida a maioridade ou independência individual (como o pagar impostos, integração no mercado laboral e sujeição a regras sociais específicas).

Unknown disse...

O autismo é um transtorno neurobiológico complexo que dura toda a vida. Este distúrbio faz parte de um grupo de distúrbios conhecidos como transtornos do espectro do autismo (ASD) e ocorre em todas as raças e grupos sociais, sendo que existe uma probabilidade quatro vezes maior de ocorrer em rapazes do que em raparigas. O ASD abrange o autismo, o Síndrome de Rett, a Doença Desagregadora da Infância, o Síndrome de Asperger, e os Distúrbios Difusos do Desenvolvimento - Não Especificados de Outra Maneira (PDD-NOS).
Não existe assim um só autismo. Existem várias formas de autismo que variam desde uma perturbação profunda (perturbação denominada de autismo clássico ou síndrome de Kanner) até a um autismo de elevado funcionamento (designado como síndrome de Asperger).
A intervenção numa criança autista tem que partir antes de mais de uma visão sistémica - Família/Escola/Terapeutas - tríade que tem que estar sempre presente na vida da criança. A questão do diagnóstico precoce na criança autista coloca-se não tanto a nível do possível tratamento mas a nível da integração da criança e da sua família na sociedade onde vivem.
Existe uma real incapacidade dos autistas activarem as áreas do cérebro responsáveis pelo reconhecimento da voz e reconhecimento de rostos. Tal inaptidão pode explicar parte das dificuldades que os autistas apresentam em se relacionar com o mundo exterior, compreender o estado emocional dos outros e interagir em sociedade.
Visto que não existe ainda cura para o autismo, a intervenção deve ser adequada e adaptada ao nível de perturbação da criança e à sua individualidade. Esta intervenção pode ser numa perspectiva de tratamento ou educação, com o objectivo de reduzir os desafios inerentes ao autismo. Numa criança autista cuja maior dificuldade seja o reconhecimento das expressões faciais humanas (muito comum no síndrome de Asperger) poderão utilizar-se os face-cards (http://www.face-cards.com/) que ajudam a entender as expressões emocionais.
Numa criança autista existe uma relação diferente entre o cérebro e os sentidos, sendo que as informações nem sempre geram conhecimento. Existem autistas com um grave défice cognitivo e que não conseguem ser autónomos no seu dia-a-dia. Noutros casos apresentam-se como pessoas perfeitamente funcionais, à excepção de um ou outro comportamento considerado mais excêntrico.
ABA (Applied Behavior Analysis) é uma terapia comportamental utilizada em autistas e tenta compreender e melhorar o comportamento humano, observando comportamentos sociais. Desta forma, através desta ciência comportamental é possível ensinar a criança autista a comunicar.
O transtorno de Asperger, o autismo de alto funcionamento pode ser retratado por Kim Peek.
Kim Peek depende da ajuda de outros para simples tarefas rotineiras. No entanto é capaz de memorizar livros de uma forma descomunal. Se por um lado tem uma tremenda dificuldade em interpretar as emoções do outro e expressar as suas, por outro, o seu método e capacidade de raciocínio é extraordinário.
Tal como no caso da Dra. Temple Gradin (reconhecido exemplo de que é possível superar o autismo), o facto de alguns autistas conseguirem ultrapassar as dificuldades em interagir em sociedade e terem encontrado maneira de se integrarem na comunidade é um sinal que este distúrbio não pode ser considerado uma deficiência, mas sim um traço de personalidade.


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Anónimo disse...

O autismo é hoje considerado um sindroma. A palavra autista foi pela primeira utilizada em 1911 para descrever um sintoma da esquizofrenia, que definiu como sendo uma fuga da realidade. Em 1943, os médicos austríacos Kanner e Asperger, utilizaram-na para dar nome aos sintomas que observavam nos seus pacientes. O trabalho deste último médico só veio a ser conhecido por volta dos anos 1970, quando foi traduzido para inglês, daí o “sindroma de Asperger”, que se diferencia do autismo por não comportar nenhum atraso específico ou global no desenvolvimento cognitivo ou de linguagem. Por volta dos anos 50 e 60 do século passado, um psicólogo afirmou que a causa do autismo seria a indiferença da mãe, teoria que está absolutamente ultrapassada.
Entre as diversas características do autismo pode destacar-se a dificuldade na interacção social, que é acentuada no uso de comportamentos não verbais que, segundo os cientistas, tem como consequência atraso ou falta de linguagem verbal. Também para os autistas onde a fala está presente, persiste uma dificuldade recorrente em iniciar ou manter uma conversa. A dificuldade maior com que se deparam os cientistas está na insistência de um acompanhamento adequado feito prematuramente para poder levar a pessoa a melhor compreender-se, assim como ao mundo e as suas regras.
Como é que podemos ter a presunção de imaginar que o outro não compreende as regras? Não estamos nós ainda numa fase em que o cérebro humano ainda não foi explorado em todas as suas potencialidades e talvez nunca o venha a ser se se persistir nos métodos de pesquisa utilizados actualmente, aliado à dificuldade do estudo do cérebro de um ser vivente? Que é feito do livre arbítrio que se deu por exemplo a um surdo, que por razões fisiológicas utiliza o gesto para se expressar, fazendo deste a sua linguagem? Neste estudo, nunca a abordagem visa o interesse primeiro do autista mas sim da compreensão a partir do factor externo, isto é, do cientista. É ele que tem dificuldade em estabelecer comunicação. Daí resulta um sem número de adjectivos que poderão estar a catalogar erradamente um ser com as suas capacidades perfeitamente afinadas mas ainda não compreendidas.
Uma coisa há em comum, não há consenso, ou melhor, não se consegue diagnosticar a causa do que se convencionou chamar distúrbio. Por esta falta de consenso, as origens são tão diversas como genéticas, ambientais, entre outras, não passando de conjecturas que persistem em chegar a lugar nenhum.

A comunicação estuda os processos de comunicação humana, no intercâmbio de informação entre sujeitos. A comunicação humana é um processo que envolve a troca de informações e utiliza símbolos como suporte para este fim. Está envolvida neste processo uma infinidade de maneiras de se comunicar: por linguagem gestual, através de mensagens enviadas utilizando a Internet por exemplo, pela fala, pela escrita, que permitem interagir com as outras pessoas e efectuar algum tipo de troca de informação.

Todas as formas de comunicar descritas, são já de amplo conhecimento de todos nós. Entre elas eu colocaria o pensamento, a meu ver, a forma de comunicar de eleição dos autistas. Não se considera pensamento como forma de comunicar, quando até nos referimos por vezes à “transmissão de pensamento”? E não ocorrendo assim tão poucas vezes, julgo que seria de considerar este, mais um caso a ser estudado, contornando um pouco a obrigatoriedade da observação. E o que fazer da expressão “uma imagem vale mais que mil palavras?”

Recentemente passou na TV um documentário sobre Tito, um garoto a quem foi diagnosticado autismo. A mãe, não se conformando com a falta de resultados em termos científicos, foi ela própria à procura de resposta e encontrou na sua própria experiência resultados extraordinários que fizeram com que o seu método esteja a ser estudado com vista a implementá-lo nas diversas comunidades onde se sabe haver autismo, e são-no por quase todo o nosso planeta. De toda a peça, toda muito interessante, há uma pergunta do médico/entrevistador ao Tito, gravado sem cortes nem montagens, “Tito, o que seria de ti se não fosse a tua mãe?” ao que o Tito responde “Seria um vegetal.” Assim, não existe problema de representação da realidade pois a expressão “vegetal”, além de ter sido compreendida, foi utilizada metaforicamente o que contraria a falta do uso da “arbitrariedade”, uma das inúmeras características da linguagem humana. A maneira de comunicar do Tito é através da escrita, por imposição literal da mãe, que lhe coloca as questões e de seguida aponta e conduz a mão do filho para a folha de papel onde este escreve as respostas, onde também se pôde constatar que não são dados erros ortográficos.
Tito é um rapaz indiano que para alem de conhecer a língua materna também conhece o inglês, com o qual se expressa com correcção. À partida, por todos os obstáculos colocados pelo rótulo “autista”, seria impensável que Tito aprendesse a expressar-se, quanto mais numa outra língua. Esta facilidade talvez aqui se possa explicar pela base comum das línguas. No intercâmbio das várias disciplinas, podemos comparar a aprendizagem das línguas à tinta que cora um líquido, que se vai infiltrando até ser predominante e só se nota se a cor for distinta do composto original. Assim acontece ao autista, só se sente que absorveu informação quando há resposta ao estímulo. Está errado, a meu ver. O pensamento é uma resposta e talvez o autista considere um primitivismo o ser humano convencionado “normal” não conseguir entendê-lo. Se existe a base (o indivíduo), então não se pode negar a ausência de aquisição de informação e concluir que há lapso de comunicação. Não poucas vezes elege a ciência um método por excelência, para logo a seguir o abandonar por sucessivas respostas inconclusivas Talvez por não sermos conhecedores/detentores de todo o conhecimento devamos considerar o pensamento um dos caminhos a seguir. Não haveria formas de comunicar mas uma forma de comunicar, universal e sem obstáculos. Não haveria exclusões e lutas pela inclusão. Nem o factor distância seria um problema. Se a Internet era impensável há uns anos atrás, o pensamento pode estar nessa etapa.

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